Brasileira leva projeto de sucesso de gestão do lixo para encontro da ONU

Gabriela participa do evento mundial da ONU, no Japão (Foto: Gabriela Otero/Arquivo Pessoal)

Uma santista é a única brasileira a representar o país na Global Dialogue on Technology for Resilient Cities, um encontro da ONU que é realizado no Japão para discutir como as tecnologias podem contribuir para a resiliência urbana contra vários impactos ambientais e mudanças climáticas. A brasileira Gabriela Otero irá contar as experiências positivas de uma parceria entre o Brasil e a Dinamarca e também irá mostrar um projeto implantado em São Paulo que tem servido de exemplo na área de gestão de resíduos sólidos, já que transforma o lixo em adubo orgânico.
Natural de Santos, Gabriela é ligada as questões que envolvem o meio ambiente desde a adolescência. Aos 15 anos, participava de ONGs de cunho ambiental e de projetos de conscientização na Baixada Santista. Depois, subiu a serra e se formou como geógrafa. Trabalhou como consultora de projetos na Espanha e no Brasil e, desde 2014, se dedica a área de mudanças climáticas e gestão sustentável de resíduos.
Atualmente, aos 33 anos, ela é coordenadora técnica da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) e ajudou a implantar o programa ‘Feiras e Jardins Sustentáveis’, no bairro da Lapa, em São Paulo, que promove a compostagem dos resíduos sólidos orgânicos provenientes das feiras livres municipais e dos serviços de poda da cidade.

 

Gabriela é coordenadora técnica da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) (Foto: Gabriela Otero/Arquivo Pessoal) Gabriela é coordenadora técnica da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) (Foto: Gabriela Otero/Arquivo Pessoal)

Segundo ela, São Paulo tem 900 feiras livres semanais, que geram cerca de 360 toneladas de resíduos orgânicos (frutas, verduras e legumes), além dos resíduos provenientes das podas das árvores. A Inova, empresa do Grupo Solví que presta serviço de limpeza pública em São Paulo, fez uma parceria com a Prefeitura de São Paulo para implantar o programa. Todo o trabalho teve o acompanhamento técnico da Abrelpe, que montou um relatório sobre o programa.

“São fileiras de resíduos amontoados com mistura correta. Você controla a decomposição por, pelo menos, 120 dias. Depois, peneira e gera o composto. Em vez de mandar todo esse resto de comida para um aterro, você prolonga a vida dos aterros, evita a emissão de metano que é gerado e você ainda cria um fertilizante da agricultura. São Paulo conseguiu fazer isso”, fala.
Cerca de 35 toneladas de resíduos orgânicos coletados em 26 feiras da cidade são processados no terreno. No final do primeiro ano de implantação do projeto, a Abrelpe fez análises laboratoriais da primeira geração de fertilizantes produzidos a partir da compostagem e o material foi 100% aprovado para ser utilizado na agricultura.

O programa ‘Feiras e Jardins Sustentáveis’ deu tão certo que Gabriela resolveu levar a ideia para o Global Dialogue on Technology for Resilient Cities (Diálogo Global sobre Tecnologia para Cidades Resistentes), encontro mundial promovido pela ONU. O evento começou na última segunda-feira e segue até esta quarta-feira, em Osaka, no Japão.

A brasileira foi convidada para expor o resultado de uma parceria entre São Paulo e Copenhagen, em 2015, do qual fez parte. Equipes brasileiras e dinamarquesas visitaram o país parceiro e trocaram experiências a respeito da gestão de resíduos.
“Há muito que se aprender com Copenhagen. Mas, também cidades como São Paulo, do Hemisfério Sul, tem a ensinar para cidades do Hemisfério Norte que, aparentemente, são mais desenvolvidas. Vou focar nessa troca de experiências e mostrar que São Paulo pode ensinar. A iniciativa da planta da Lapa, que é aparentemente pequena, perto do que São Paulo gera é muito pouco. É uma primeira iniciativa, mas completou dois anos, deu certo e a cidade vai construir mais quatro unidades iguais”, disse.
Gabriela apresentou os resultados do programa de São Paulo no primeiro dia do evento, dentro do painel sobre Estratégias de Gerenciamento de Resíduos Nacionais e em Cidades. O objetivo é trocar experiências entre países com estratégias, planos de ação e projetos de demonstração nacionais e urbanos de gerenciamento de resíduos.
“Vou contar o caso de São Paulo, mas sei que alguém da Malásia, por exemplo, pode se interessar e eu posso fazer essa mediação. Esse modelo (de São Paulo) pode ser replicado. A ideia é promover o dialogo entre as cidades para se ajudarem entre si. A ideia é também trazer ideias para cidades brasileiras”, diz.
Gabriela diz que o programa paulistano é uma prova de que é possível fazer uma boa gestão dos resíduos sólidos. Segundo a Abrelpe, quase 3 mil lixões foram identificados no Brasil em junho de 2017 e trazem um prejuízo anual de R$ 3,6 bilhões, valor gasto para cuidar do meio ambiente e para tratar dos problemas de saúde causados pelos impactos dos lixões.
A brasileira diz que é preciso mostrar que as boas iniciativas do país, mesmo que ainda tímidas, podem inspirar outras cidades e países. Ela agarra a oportunidade de participar do evento mundial e encorajar outras cidades. Para ela, não importa o tamanho de uma cidade, sempre é possível começar uma iniciativa ambiental.
“A gente sempre fala de política, da dificuldade do brasileiro. Quando a gente tem coisas boas para compartilhar, tem que falar. Tem outros países que tem esses problemas também, que o nosso programa possa servir de estímulo. (…) Além de ser uma ambientalista, sou mulher, jovem. A gente pensa que alguma coisa está mudando. Todo mundo está cansado de senhores de terno e gravata fazendo política mundial. Estou tendo uma abertura muito legal. É um baita privilégio levar a voz feminina”, disse.